09/01/2010

No campo dos devaneios

Tudo é bálsamo nos primeiros instantes que nos dedicamos à prática de sonhar. O sonho é ferramenta indispensável para melhor suportamos as aflições. O mal, contudo, reside no sonho desprovido da ação, na realidade limitante, que naugrafa planos.

A vida é toda incerta. Por isso é vão o nosso esforço para entendê-la. Não se trata de uma ciência exata, codificada em fórmulas, prevista inflexivelmente em cartas. O esforço não garante a certeza da vitória. Mas sem ele, sequer existem possibilidades.

E tudo vira confusão. O pensamento entre em pane. Ideias breves sugem à mente, desconexas. O que fazer com o medo do fracasso? Saberei suportar uma possível derrota? Como responder a tantas perguntas? Como afastar os questionamentos infrutíferos?

Quero viver, desesperadamente viver e me ver livre das algemas que me prendem à inércia da incerteza e ao caos do pensamento.

Quero alçar voos altos, sem medo que as asas me falhem.

Quero ser eu, apenas, sem receios de julgamento.

Quero tudo, quero tanto, que chego a colocar em dúvida todo esse querer.

03/05/2009

Visita íntima

Reviver o passado não é exatamente embarcar em uma cápsula do tempo que nos transporta à data exata de acontecimentos pretéritos. Adentrar a antiga escola de segundo grau e perceber que muito do passado permanece no presente foi um bálsamo consolador, foi chama a reavivar esperanças em um presente de realizações insípidas.

Retornar àquele prédio foi muito mais que uma visita a um espaço físico e a pessoas queridas. Pude visitar a mim mesmo, mergulhar no meu mais profundo íntimo e perceber o valor daqueles anos. Abraçar as professoras e ser por elas reconhecido foi um resgate de forças que demonstraram que o plantio daquela época fértil deu colheita rica e proveitosa.

Bem-aventurados sejam todos os que desempenham a nobre tarefa de disseminar o conhecimento, luz capaz de erradicar com amor as trevas da ignorância que petrifica a evolução.

Entrar naquelas salas de aula foi ver meu próprio reflexo em um espelho, que mostrava o início de uma juventude privilegiada. As salas me pareceram menores, quase salas de estar, nas quais me senti maior do que quando as frequentava diariamente, como se as experiências vividas fora delas agregassem de maneira concreta, palpável, ao meu corpo físico.

Todas as situações eram coro, que em voz uníssona reafirmavam a necessidade de continuar idealizando dias melhores, de continuar a ser o mesmo menino de outrora que sentara naqueles bancos com sonhos ainda hoje não realizados.

02/02/2009

Estranha lucidez

Ela mergulhou na piscina com a habilidade de quem nada há muito tempo. Eu contemplava o ato, invejando o conhecimento que me faltava.

Por alguma razão, a criança de outros tempos não tivera confiança suficiente no genitor que lhe propôs o ensino de técnicas de mergulho.

Naquele dia quis ter vencido o medo quando meu pai quis me ensinar a nadar em um sítio, nas férias de um fim de ano qualquer.

- Você não vai entrar? A água está ótima – convidou a amiga.

Um estrondo no centro da piscina anunciava que alguém havia pulado. Nada com que se preocupar. Havia muitos jovens entrando e saindo de lá das maneiras mais irreverentes.

Mas eu me preocupei. Minha cabeça não emergia da superfície sem que meus pés se elevassem dos azulejos. Percebendo a gravidade da situação, a vida se apresentava assustadora, num repentino momento de estranha lucidez.

Cobrava-me atitudes que não havia tomado nos anos anteriores àquele momento que parecia ser o último desta minha existência na Terra.

Debati-me naquelas águas por alguns minutos, não sei se um ou dois, exatamente. Sabia apenas que morreria ali, expondo a vergonha de não saber nadar a uma platéia de quase 100 pessoas.

Clamei por socorro até que senti mãos me empurrarem para a borda, na tentativa de auxiliar o colega em apuros. Era o impulso necessário para conseguir chegar à beira da piscina, de onde fui retirado com esforço e preocupação.

Esse episódio, ocorrido há quatro anos, foi de certo o mais desesperador pelo qual passei. O pavor não foi apenas pelo afogamento, mas, sobretudo, por ser envolvido pela assustadora lucidez que muitos têm apenas nos angustiantes instantes que precedem a morte.

06/01/2009

Ainda menino

O excesso de peso causado pelas festas de fim de ano e o fechamento da academia de ginástica para a conclusão de uma reforma me fizeram caminhar pelas ruas da minha região. A fim de quebrar a inércia dos dias de ócio, andei por lugares não frequentados por mim já há alguns anos.

Assim que saí de casa tracei o roteiro. Passaria pela minha antiga escola, onde estudei do pré até a 8ª série. Confesso que foi uma experiência revigorante. Pude perceber que o menino daquela época ainda reside na minha intimidade.

É um alento saber que as situações vividas fora daqueles muros altos – das salas de aula humildes, com carteiras rabiscadas, paredes pixadas, como na maioria das escolas públicas, não me modificaram a essência – não me tiraram a maneira inocente de sonhar com o futuro.

Os sonhos não mais são os mesmos, afinal os anos passaram e a vida se renova. Mas, por não permitir que a maldade do mundo se engrandecesse na criança de outrora, o desejo de viver para sorrir não morreu em mim.

Pude lembrar-me, inclusive, do cheiro do local: cheiro de simplicidade, de alegria, de infância feliz expressada nas brincadeiras e gargalhadas nas aulas de educação física, nas conversas amenas da hora do recreio e no trato afável, quase maternal, das saudosas e inesquecíveis professoras.

Senti falta daquele carinho que tanto me preenchia a alma e que hoje não tem o mesmo calor. Relembrar com saudade uma época tão cheia de significação foi um episódio inédito na minha vida, pois pouco me dou a lembranças do passado.

Foram anos acolhedores, em que a ternura e a mansuetude eram verdades absolutas, inquebrantáveis, imutáveis. Receávamos a vida adulta, que chegou para todos. E agora, o que mais me faz perder o ar é o temor nos dias de hoje, pela incerteza do cotidiano adulto, desconhecido pela sublimidade da infância bem vivida.

27/12/2008

Renovar no ano novo

Às vésperas de um início de ano pouco refletimos sobre as conquistas que se deram ao longo do ano derradeiro. Somos reflexo da ganância de uma sociedade que se preocupa apenas com o acúmulo – seja de bens, de experiências, de beijos, de relações afetivas – e por isso não sabemos valorizar e sequer enxergar as oportunidades diversas que a vida nos apresenta.

Querer sempre mais não é o problema, desde que saibamos valorizar e sejamos gratos por tudo o que conquistamos. Quando apenas fazemos planos para o novo ano sem antes fazer um balanço sincero do ano que tivemos – os pontos negativos e os positivos, que sempre existem – nunca nos sentiremos realizados.

Não acredito que os sofredores sejam vítimas da fúria divina na Terra. Não acredito também que não exista indivíduo desprovido de dificuldades neste planeta. Mas em todas as situações, cabe a nós direcionar um olhar de renovação e encontrar nas atribulações a oportunidade para mudarmos de atitude.

Não há ser humano que duvide de que com as dificuldades crescemos. E que nem sempre a nossa vontade corresponde às nossas reais necessidades de aprendizado. Se nada aprendemos com os problemas, com as pessoas difíceis que persistem em nosso convívio, com as dificuldades financeiras, reflitamos. De certo, perceberemos a necessidade de sermos a mudança rediviva que tanto buscamos externamente.

A persistência de uma dificuldade é sinal que precisamos vencê-la. E nem sempre vencer significa exterminar. Lidar bem com as adversidades já é uma vitória. Se quisermos um ano verdadeiramente novo, que nossas atitudes, pensamentos e palavras sejam renovadas, afinal “somos nós que fazemos a vida”. Feliz 2009!

30/10/2008

Amigo de infância

Ainda na infância ele me visitava com freqüência. Aparecia sem mais nem menos, como se fosse outra criança em busca de uma companhia para brincar. E eu, na minha inocência e fragilidade o acolhia. E sofria além do normal para um menino da minha idade. Não foi um convívio fácil, tampouco agradável, mas passávamos horas juntos. A única companhia que restava para mim.

Ele não me incomodada tanto. Pelo menos não era o que eu sentia. Ao contrário disso, dava-me segurança, preferia ficar quietinho comigo, sem fazer alardes, mas me protegia excessivamente. E eu gostava disso. Mas chegava a me sufocar com o seu ciúme quando notava situações em que eu, provavelmente, me sentiria liberto de sua presença, ao menos por um instante.

Nessas ocasiões, agredia-me com violência. Não tinha dó. Não permitia a minha relação com outras crianças e quando me via tentado a uma aproximação jogava sujo: subestimava o meu porte físico, dizia-me ridículo, motivo de chacota. Eu, mais uma vez, acolhia as ofensas como uma máxima e amuava-me num canto. Triste, limitando-me a espectador da alegria alheia.

Sentia amargor intenso na boca, o que ainda acontece quando a ira e a desolação me fazem morada. Amarrava a cara e não me permitia sequer o esboço de um sorriso. Até mesmo o sorriso de criança, espontâneo e belo como o de qualquer outra da mais tenra idade, me era impedido pelo amigo carrasco. Anulava-me. Era mal visto pelas outras crianças.

A situação era freqüente. Confesso que até hoje ele me procura, embora menos incisivo. Mas eu, frágil, raramente deixo de recepcionar o velho amigo de infância. Ainda hoje, levo em conta suas crises de ciúme, suas opiniões agressivas, que muito me ofendem e desanimam. E ainda sofro por tê-lo por perto. Faltam-me forças para encará-lo com firmeza, chamá-lo pelo nome e dizer rispidamente: MEDO, nossa relação acaba aqui.

14/06/2008

Um ato de gentileza

Tomar o metrô às 18h, todos os dias, na estação Anhangabaú não é tarefa fácil. Pessoas se aglomeram da entrada da estação à plataforma, com risco dos passageiros caírem na via. Entretanto, o que mais impressiona não é o alto número de indivíduos juntos em um mesmo local, mas sim o exemplo assustador do egoísmo humano.

O trem chega veloz à plataforma. Os mais próximos à faixa de segurança tremem, receosos. As pessoas se amontoam junto à porta do veículo e empurram umas às outras para dentro do vagão como se fossem montes de lixo que o lixeiro despeja, sem qualquer critério, num caminhão. Não se importam com a condição de quem está à frente. Cansei de presenciar idosos, crianças e mães com bebês de colo sendo tratadas como se nada fossem.

Um dia, um rapaz foi arremessado para dentro do vagão com tanta brutalidade que caiu no chão sob o riso ignorante do conformismo e da passividade dos demais usuários.

Olhei o rapaz sem reação. Perplexo. Humilhado com o deboche, permaneceu ainda por alguns segundos no chão, olhando a tudo assustado, como se procurasse pelo vagão e nas pessoas que o adentravam, um resquício de dignidade. Estamos muito bem condicionados a encarar situações degradantes com tanta naturalidade que somos capazes de rir da humilhação que constantemente sofremos.

O egoísmo foi tanto que sequer perguntaram se estava bem, se havia se machucado. Após se divertirem à custa de sua queda, o ignoraram. O espetáculo havia terminado. A baixaria cessava e o som das gargalhadas davam espaço ao apito que comunicava o fechamento das portas do trem.

É bobagem remeter a culpa disso tudo aos governantes. Seria irracional e cômodo. Não é necessário que esperemos grandes reformas no sistema de transporte para viajarmos em paz, afinal todo ser humano é capaz de um ato de gentileza. Basta exercitar a boa vontade.